Há quem acredite que músicos vivem em um eterno pano de fundo sonoro, como se cada instante de suas vidas fosse embalado por trilhas dignas de cinema.

Mas a realidade é outra. Nós, músicos, amamos tanto a música que não conseguimos simplesmente jogá-la no fundo do cotidiano como se fosse papel de parede.
A verdade é que o músico gosta, aprecia e valoriza tanto a música que não suporta ouvi-la enquanto realiza outra atividade. Temos uma relação simbiótica com a música. Nesta interdependência, precisamos dela assim como precisamos respirar. Agora, imagine a situação: engolir e respirar ao mesmo tempo. Eu adoro comer e tenho muito prazer nesse hábito, mas tente engolir comida e respirar ao mesmo tempo. Tentou? Não dá, né? É mais ou menos assim nossa relação com a música.

Quando ouvimos música, estamos 100% envolvidos, focados em tantos detalhes, tantas sutilezas e emoções, nas relações quase infinitas das combinações de timbres, que não encontramos espaço para qualquer outra atividade que nos distraia minimamente da experiência de ouvir. Além disso, muitos músicos têm reservas sobre a chamada “música de fundo”, porque sentem que ela pode desvalorizar a arte e o esforço envolvidos na criação e
performance musical.

É muito comum chegar à casa de um amigo e, ao saber que sou músico, ele preparar um super setlist para ouvirmos enquanto conversamos. Fico um pouco constrangido, com receio de parecer grosseiro, mas como explicar que é bastante penoso para mim conversar com música ao fundo? O que geralmente faço é prestar atenção em uma ou duas músicas, deixando a conversa de lado momentaneamente para elogiar a seleção. Em seguida, explico que tenho dificuldade em conversar sem focar na música
que está tocando. A maioria das pessoas entende, embora fique surpresa ao descobrir que um músico não gosta de ouvir música nesses contextos.

Então, esclareço novamente: o músico adora ouvir música, mas não consegue fazer isso enquanto realiza outra atividade.
Muitos estudos mostram que, ao executar música, fazemos uma quantidade impressionante de conexões neuronais que nenhuma outra atividade consegue igualar. A impressão que tenho é que, ao apreciar uma música, reativo todas essas conexões, e isso não deixa espaço para mais nada no meu cérebro.

Uma vez, um amigo muito próximo me perguntou se a música poderia atrapalhar uma relação sexual. Respondi: atrapalha, e muito! Rimos bastante com essa situação. Para muitos, a música pode ajudar na ambientação, mas, para um músico, ela significa perder o foco. É incompatível. Enquanto outros se deixam levar pela trilha sonora da paixão, eu acabo capturado por ela.

De repente, um violoncelo se destaca e minha cabeça já está analisando o arranjo, imaginando a partitura. Resultado?

Lá se foi o momento.

Não me entenda mal. Não é que eu não compreenda a função do fundo musical em certas ocasiões. Aprecio seu papel em criar atmosferas, em suavizar silêncios. Mas, para mim, a música nunca será apenas pano de fundo. Ela é protagonista. É o diálogo que me prende, o fôlego que me falta.
Talvez seja por isso que, quando chego em casa depois de um dia cheio, prefiro o silêncio. É o único som que não pede nada de mim.

 

* Artigo do maestro Tiago Flores publicado no jornal Correio do povo no dia 25 de janeiro de 2025.