Nesta semana, ao ouvir um podcast com entrevista da jornalista Natuza Neri, em que ela abordava os efeitos — positivos e negativos — da chamada multitarefa, senti vontade de refletir sobre o tema a partir de um ponto extremo e quase oposto: o hiperfoco, especialmente na profissão de músicos de orquestra e maestros.
Vivemos em uma época que celebra rapidez, a diversidade de tarefas e a capacidade de “dar conta de tudo”. Ser multitarefa tornou-se sinônimo de competência, produtividade e até virtude. Mas essa narrativa merece ser questionada: será que realizar várias tarefas simultaneamente produz, de fato, resultados superiores? E a que preço?
O cérebro humano não foi desenhado para a fragmentação contínua da atenção. O que chamamos de multitarefa é, na verdade, uma sucessão rápida de interrupções. Cada troca exige energia cognitiva, reajuste emocional e perda de profundidade. O resultado é um estado permanente de alerta — aparentemente eficiente, mas pobre em realização.
Em tarefas que demandam raciocínio profundo, sensibilidade, atenção e decisões precisas, o foco não é um privilégio, mas uma necessidade. É a concentração contínua que possibilita o amadurecimento das ideias, o surgimento de conexões delicadas e a construção de um trabalho com maior consistência e profundidade.
Sem isso, produz-se muito, mas invariavelmente com menos qualidade e riqueza.
Há também um custo humano que raramente entra no cálculo. A pulverização da atenção está associada a distúrbios do sono, ansiedade, sensação crônica de insuficiência e esgotamento emocional. Corpo e mente não encontram repouso, porque estão sempre “ligados”, sempre disponíveis, sempre atrasados em relação às próprias demandas — demandas que, muitas vezes, nem chegam a ser plenamente concluídas, gerando a permanente sensação de inacabamento.
O foco profundo, por outro lado, tem algo de subversivo no mundo atual. Ele exige silêncio, tempo, limites e escolhas. Mas é justamente aí que reside sua força.
Pessoas hiperfocadas — quando sustentadas por condições saudáveis — não apenas produzem melhor; vivem melhor. Encontram sentido no que fazem, experimentam prazer no processo e desenvolvem uma relação mais íntegra com o próprio trabalho.
Esse é um grande diferencial dos músicos. Estudar é parte do prazer. Passamos quatro, cinco ou até seis horas diárias focados, concentrados, atentos a cada detalhe, não importando o tempo necessário para nos aproximarmos da perfeição e evitar que o menor erro aconteça em um concerto. E fazemos isso com prazer.
Talvez o verdadeiro avanço não esteja em fazer mais coisas, mas em optar pelo essencial — com mais presença, mais escuta, vivenciando cada nota executada, com amor à arte, humanidade e sensibilidade.
Foco como fundamento da excelência orquestral A orquestra é, por excelência, um organismo coletivo que depende do foco individual. Cada músico carrega uma responsabilidade silenciosa: estar plenamente presente, atento ao próprio instrumento, ao colega ao lado, ao gesto do maestro e à arquitetura sonora que se constrói em tempo real.
Ao executar uma obra coletiva, utilizamos praticamente todos os sentidos: a visão na partitura e no gestual do regente; a audição nas próprias notas e nas dos colegas; o tato no instrumento, exigindo coordenação motora refinadíssima; e o cérebro realizando sinapses que mobilizam emoção e razão simultaneamente. O resultado, muitas vezes, é algo que beira o transcendental.
É importante esclarecer ao público que essa atividade é extremamente cansativa. O hiperfoco gera desgaste, e o descanso é indispensável. Não é por acaso que, em ensaios de três ou quatro horas, são necessários intervalos após cerca de uma hora e meia. Da mesma forma, ao final de um concerto, a descarga de adrenalina é tão intensa que precisamos de tempo para “baixar a poeira” e conseguir dormir adequadamente.
Nesse contexto, a ideia de multitarefa encontra limites muito claros. Um músico não pode tocar bem enquanto divide sua atenção entre o ensaio, mensagens no celular, condições acústicas ou térmicas adversas, preocupações externas ou excesso de funções acumuladas. A qualidade do som, da afinação, do fraseado e da escuta coletiva sofre imediatamente, gerando frustração.
O mesmo vale para o maestro. Reger não é apenas marcar compassos; é ouvir múltiplos planos sonoros, antecipar problemas, inspirar confiança e tomar decisões artísticas em frações de segundo. Isso exige um nível de concentração incompatível com a dispersão crônica e com agendas excessivamente fragmentadas. Por isso, o silêncio na sala de concertos é tão importante: ele é a base para um estado de presença plena.
Quando instrumentistas e regentes são pressionados a acumular inúmeras tarefas simultâneas — administrativas, operacionais e burocráticas — os efeitos logo se manifestam no ensaio, no palco e, sobretudo, no convívio humano da orquestra. A fadiga se intensifica, a irritação cresce, os conflitos se multiplicam, e o trabalho artístico acaba sendo empurrado para segundo plano.
Orquestras de excelência, em diferentes partes do mundo, tratam o foco como um princípio fundamental. Preservam o tempo de ensaio, valorizam o estudo individual e reconhecem a importância do descanso. Compreendem que a qualidade artística não é fruto da urgência, mas da prática atenta, da repetição refletida e de uma escuta verdadeiramente profunda.
Defender o foco na vida orquestral é, portanto, defender melhor qualidade artística, mais saúde física e mental, relações profissionais mais equilibradas e maior longevidade das carreiras musicais.
A música de concerto convoca algo cada vez mais escasso em nosso tempo: a atenção plena, silenciosa e disponível. Preservá-la não é um gesto de resistência ao mundo moderno, mas uma escolha lúcida e ética em favor da qualidade, da arte que eleva e da dimensão mais sensível e humana da experiência.
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